domingo, 29 de junho de 2014

História Feliz de Cheiro e Cor

Correndo, adoidado, esbarrando-se em tudo, lá vinha o pretinho. O olho agigantado, paranoico, fotografando trezentos e sessenta graus da paisagem dos becos enlameados e das modestas casas espremidas e desordenadas. O corpo sujo, preto, exalava forte o cheiro da Nóia. Agora, sem fome, entraria na bodegazinha mais próxima, do seu Francisco mais desavisado que houvesse. Pegaria o que mais acessível fosse ao seu bolso que no máximo caberia um sabonete ou uma barra de chocolate. Não ia banhar-se nem mesmo saborear um docíssimo doce. Venderia ao primeiro caridoso desalmado que cristianissimamente ajudaria um coitado pobre-diabo. Ia sorrindo, sujo, pretinho, sem camisa. O bolso pesado com o produto de seu mérito. Menino iluminado pelo sol ardido. Sorria esse pivete, sem destino, sem família. Um prejudicado, um prejuízo. Sorria, mas que sorriso lindo e teimoso! Será que era feliz?

Correndo, adoidado, esbarrando-se em tudo, lá vinha o pretinho.

sábado, 14 de junho de 2014

Massacre

Na rua passa o primeiro trabalhador,
Ante o sol e o cantar dos pássaros.
Passa a primeira mulher de guarda-chuva,
Ante o frio e a gota d'água.

As casas abrem,
O sol respira,
O dia corre
Na tarde que gira.

Ante a lua e os congestionados
Volta a mulher e o guarda-chuva,
Volta o trabalhador desempregado.

Vai vigia;
Vai menina da noite;
Vai menino sabido.
Vem com bolsa, correndo.
(Ante a sirene)

Vai a menina no escuro
Com alguém cheio de juízo.
Um gemido fingido; Um grunhido estrondoso:
Ah,o dinheiro! Ah,o gozo!

Na rua passa o primeiro trabalhador.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Pressão

A pressa,
essa sim!
Paralela
ao tempo,
o atraso.
Salto ornamental
num prato de sopa
raso.
A pressa,
essa sim!
Para o tempo,
nada vem,
toda rua fica escura,
toda oração falta amém.
Todo povo se apressa,
se empurra,
se derruba.
Na pressa,
não tem o tempo.
Quem passa,
não sente culpa.
Quem culpa,
não sente pressa.
Quem tem pressa,
já se foi.

domingo, 1 de junho de 2014

Destino

Lá pelas meia-noite e tantas,
Onde o tempo não passa,
O corpo não para
E a alma não cansa.
Lá nos becos escuros
Onde a vida não alcança.
O coração é um grito,
O amor uma lança.

Canção dos Prazeres Terrestres

A música da minha festa
Nunca deve ser tocada
Nem cantada
Nem falada
Nunca conte a ninguém.

A música que não se toca
Ecoa alto mas é detida
Retida
Contida
Permanece eternamente escondida
É do submundo uma subvida.

Jamais mereceu ser ouvida
Proferida
Inferida
É uma música suja que contamina feridas.

A música da minha festa
Quem escuta
Detesta.

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Procura-se a beleza das coisas belas;
O sorriso dos dias alegres;
Os amigos dos tempos difíceis;
Os amores do peito doído;
Os sonhos dos tempos antigos.

Procura-se o antigamente no agora,
Sei que não é tarde , nem passou da hora.
Procura-se a felicidade antes de ir embora.

Barra

Foi o sentido real
Lado louco do cotidiano
Os perigos reais
Os maiores desenganos

Foi o perdido
Entre os dias da semana
Entregar-se de alma na monotonia
Rodopiando e piando
Deslizando sobre planos
Semáforos relógios e telenovelas
Iluminado sem lógica
Psicodélica sobrevida
Acordada e adormecida nos fornos das padarias

Foi do começo ao final
Imune a sonhos
Tropeçando acidentalmente na realidade
Nunca morreu sempre pagou sorrindo
Foi-se aposentado e óbvio e sóbrio
Meus pêsames sórdidos

A luz da realidade