quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Não te envaideças
pelo desejo do outro.
 Não te endureças
pelo desprezo do outro.
Não te pertenças.

Delicadeza

Amei uma deusa.
E ela me amava também.
E eu fiquei tão triste...

sexta-feira, 30 de outubro de 2015


Ainda meus joelhos me põem à devida disposição de invernos tropicais e gritos celestes do inferno.
Por que meus anjos não tropeçam nas batinas e caem bolando misturando-se aos homens?

Tudo tem se desfigurado.
Desde as palavras enrijecidas pelo tempo
às esperanças desfiguradas por espadas.
As emoções cada uma em sua escala tem um código que embala.
O tudo virando nada.

Depois, por mais mistérios concedidos em meus sonhos,
tive revelações de como eu seria ontem se não tivesse lido hoje o futuro em qualquer jornal.
Por que meus olhos não resistem as noticias e lhes tranformam no bem que lhe convier?

Nada maior que o dedo no olho do inimigo;
O que eu não quero que suba no mesmo ônibus que eu.
Metade do ano já é quase o ano inteiro,
e as emoções e as esperanças e as oportunidades
viraram.

Agora eu não tenho mais paciência para piedade,
não tenho mais paciência para a devoção,
paciência para o aprendizado,
só resisto ainda por sonhos
que insistem em grudar nas minhas costas
pesando e dizendo: continua continua!


À parte isso teria largado tudo e congelado no tempo até o dia do arrebatamento.

Impossível.

"À parte isso" é parte de mim.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Sumo

Como dói-me no bolso, ó, meu amor.
Dói-me a amargura do nenhum tostão.
Pergunto ao patrão, Doutor, tem cura?
Ele, sem ternura, me diz sempre, Não.

Como doem-me os sonhos e os pesadelos.
Todos que almejo tem no camelô.
Pergunto ao senhor, Senhor, o preço!
Ele, Por apresso, um milhão e meio,
sem apresso mesmo, um milhão e meio e dez.
Antes que me diga,
Quer que embrulhe ou vai na mão?,
já dou meia-volta mio mirando o chão.

Em a casa TV-MENDIGA, diz mil modo geniais
maneiras de me enforcar em consumos desleais
jogo  de panela brinco mochila computador
canivete distintivo desatino desamor
chocolate em bomba em pó
cocaína red bull
galosina
inseticida
vitamina
dissabor.






quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Diabo

Foram quebrando minhas pernas lentas
depois vestindo minha pele nua
e então gritando em minha boca muda
embaraços embaraços embaraços

Sumiram todos um por um ao último
o rosto estreito já não tinha olhos
e sem reforma ia virando outra
e destruindo feito fina louça
em pedaços em pedaços em pedaços

ave, o coração que ria
planta que não dava fruto
chuva que caía fina
mundo parecendo vulto

porfiar para por fim será melhor que redimir
rir de mim para suportar será melhor que porfiar







sábado, 19 de setembro de 2015

Dom João

João, bom amigo e, acima de tudo, um escritor nato. Soube disso quando ainda aos doze que tínhamos nós dois, fiz-lhe um visita para trocarmos figurinhas. Sua mãe aflita porém cheia de candura me entregando um bonito pedaço de bolo doce e marrom, me apertou com os olhos e:
- Conversa com esse menino, Mateus! Já vai passando do centésimo romance que ele me encerra só esse mês.
Todo orgulhoso do amigo que tinha, pus-me nos mesmos caprichos.


Dissabor

Depois da noite longa ela vem a pé
descendo a avenida sem disposição.
Já desacelerada à cocaína
ela dá sinal e sobe no busão.
Cambaleando o salto ela se lança.
E olha da janela um dia desigual.
A noite ainda presa na garganta
sentindo o gosto amargo das palavras sem sabor:
água e sal.



Segregos

Eu moro ali
aquele terreno em festa
onde o sol bate sem pena
gentileza é quase luxo
amor então desarreda

é dos ricos tudo
ouro saia barba bicicleta

de nós a companhia elétricolíquida
e funerária
o acoxo bom
o sufoco todo mês
pouca
quase
nenhuma

penitência


acarinhados pela falta

Doença de Leitor

Tempo para esticar poesia não me falta.
Sofro mesmo é de pouco punho na fina massa
para empunhar palavra,
- essa espada deveras pesada!

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Púbius era um homem doente:
sua capa singela, seu oitavo reinado,
sua mudança repentina de estado,
sua mulher gritando baixinho
no seu ouvidinho: Eu juro não fiz
nada com o eunuco! e o Púbius
puto.

ALUGA-SE

Chico esfria
caminhão dá leite
Palhaço dá dor de barriga
mas não mata sede
geladeira alumia
mia mia mia
mais dia
menos dia:
Carta de alforria!
Viemo te despejar!

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Organismo


A cidade em que vivo é, acima de tudo, grande.
E tem tantas coisas
quais minha natureza não consegue enumerar.
A cidade em que vivo tem pernas longas.
Acima de tudo pouca disposição.
Muitos bares, infinitos conhecidos,
Uma indiferença em cada avenida
E também muitos carros e motocicletas.
O suor e a irritação são nosso jeitinho de acariciar.
Ao visitante temos um bom banho,
Uma orla que não tem tamanho,
E todas as pirocas das mulheres na esquina.
E apesar de toda a violência,
A cidade em que vivo não me permite chorar.
Não há uma esquina qualquer,
Uma viela, uma calçada,
Um pé de muro, uma sombra de jambeiro
Que me receba
Me abrace e console meu choro.
Por isso, sempre que preciso chorar,
Regresso ao estrangeiro.

sábado, 8 de agosto de 2015

Maioridade Penal

Aos meus pais
sugiro uma viagem ao Uruguai
uma conversinha com Iansã
um baseadinho de manhã
uma boa saúde, uma
boa aposentadoria
saudade.

Puer, pueril, punhado
pus o mundo pr'outro lado.

amor que te amo entranhas
que te amo na carne de dentro.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Qual palavra indo embora ora se turve a imagem
cresce o corpo em pasmas rugas.

terça-feira, 7 de julho de 2015

Poema conterrâneo

Nessa casa onde o desterro
É estado permanente,



Contudo, suporto.
Contudo, choro, menino.
Contudo, acato as dores do outro
E desacato austeridades.
Contudo, cuspo na cara dos que me pedem mesura.
Contudo, amo.



segunda-feira, 22 de junho de 2015

Poeminha subversivo

À luz da modernidade a angústia tende a diversificar-se infinitamente. Soube, inclusive, de um caso em que uma dor de dente deixou um homem amargurado para o resto da vida. Conquanto, dias antes, sua mulher havia lhe abandonado, deixando-o sem dinheiro casa filhos, e foi a maior festa.

Diálogo debaixo do céu

          Deito sobre meu cansaço numa rede à tardinha. A tardinha amarelinha - tempo que não caio em mim. Balanço. Incapaz de redigir um discurso em defesa dos meus próprios ideais que não sei quais são mas os defendo com unhas e dentes. Mais unhas. Passo fácil por esse período de isolamento social. Moro em mim com tranquila palidez e medo algum que chova. Consigo repousar e dormir e fazer amizades que se rompem ao passar de exatos doze minutos, sem que ninguém sofra nem perceba ter sido amigo. E por mais que eu carregue comigo o cansaço, eu nunca canso. Nem no velório de meu avô, nem no dia que um grande amigo foi preso por tentativa de homicídio e muito menos nas três ou quatro vezes que eu saí de casa decidido a acabar com a merda de vida que eu supunha ter. Eu nunca estou cansado.
          Não abraço os entes queridos e nem tenho olhos serenos para dentro de ninguém. Eu não sinto saudade de tempo algum. Não guardo lembrança de tempo algum. Já fui saudosista, mas deste tempo nada me vem à memória. Remexo daqui, bulo por acolá; tento me posicionar na história do meu tempo ou, ao menos,  na história de meu país. Brasil... Eu, que não conheço o sentimento da convicção, guardo, com sangue, os meus próprios ideais, embora, ainda não saiba quais são. Vou a guerra.
         Como posso analisar o choro da pessoa amada, o silêncio de minha vó, o requinte e o luxo que é a distância e a fome? Peso bem todas as palavras na minha balança quebrada. Pois que nasci mesmo pronto a cometer injustiças.

domingo, 17 de maio de 2015

sábado, 25 de abril de 2015

do menino do João

     Bem mais tarde, sol poente, domingo lindo, João pendurado no murinho da laje. A perna engessada; a cara de ébrio. Ébrio não, bebum.
- Desce daí, João! Não vai fazer uma desgraça dessa com nós! - Chorava e berrava. Dava dó. Ô, Dona Conceição!
      As vozes narrativas perturbavam a consciência de João: Mataram teu menino, foi a policia. Mataram teu menino, foi os menino do outro morro. Cinco tiros, João. Três facadas, João. Lá nos asfalto, João. Corre lá, João. Teu menino era bandido, João. João. João. João. João desregulou-se.
- Desce daí, João! Vamo tomar um banho pra melhorar dessa cachaça. Eu faço um caldo. À noite a Amélia vem aqui com a Dona Rita e nós vamo rezar um terço, desce. Ô, João, tem pena d'eu.
       Um mês, mais ou menos, chegaram com os fatos na maior das gritarias na porta de João e Dona Conceição. De lá pra cá não teve João na obra; não teve João na feira. João que é João só teve no bar.
        Na última, João chegou no bar e o assunto era o menino. João que é João, jámôrdebêbo, virou mesa, quebrou garrafa e deixou ferido uns três. Mas o bar estava em vantagem. foi motim foi linchamento. Só pararam porque alguém pediu pelo amor de Deus, em respeito, ao menos, à Dona Conceição.
        Bem mais tarde, sol poente, domingo lindo, João sobe na laje em primeira pessoa e decide acabar com todas as vozes narrativas. Olha para baixo e vê, chorando, andando para lá e para cá, a embaçada e muda Conceição. E o enredo continua: Nesta quinta-feira, adolescente foi morto, baleado em troca de tiros com gangue inimiga. Mataram teu menino, João. Foi a policia. Foi o ladrão. Foi outro menino. Era bandido. Mereceu. Corre lá, João, corre lá.

terça-feira, 31 de março de 2015

Marta espapaçada ao sol

“Marta enfurece o sol com seu canto
Pois tirou a roupa bem na hora do tiroteio.
Marta tem um banho de rio nos olhos,
Respira bem da cabeça, mas o púbis e os pulmões
Seguram na mão de deus.

Marta ria que se mijava porque na igreja
Rezavam para que chovesse e
Quando chovia rezavam para que parasse.

Marta enfurece a luz com sua voz.
Tirou a roupa bem na hora da comunhão.
Tem um cisco no olho esquerdo.
Já não tem cabeça nem púbis nem pulmões
Mas o coração
                               Azul!
                                                Resiste.

Marta ria que se mijava
Porque nunca mais choveu.
Ela acha que deus tapou os ouvidos.
Marta vê beleza nisso tudo.”

Jardim do Éden

Deus fez o homem sua imagem e semelhança.
E desde que o mundo é mundo
Do primeiro ao sétimo dia
Deus diz: Haja paciência para nossa imbecilidade cotidiana.

E então nasceram os carros e os aviões
E um Shopping Center a cada esquina
E quatro jovens de classe
Num semi-veículo de semi-luxo
Gritando pela janela: Vem cá, gostosa!

E fez-se na terra as gostosas
E as bocas femininas
E uma série de vantagens.
Por exemplo: ATÉ AS DEZ, MULHER NÃO PAGA.

Sento sobre meu coração
E sentar sobre meu coração às seis horas da noite
É como sentar no banco do fundo do ônibus:
Balança, sacoleja, me joga no chão.

Acho bonito teu corpo se movimentando.
Pena que ele não está voltando para casa feito o passarinho!
A hora do homem é quase dez,
Do passarinho, às seis.
E hoje, por incrível que pareça,
É segunda-feira.
Haja paciência para nossa imbecilidade cotidiana!
Deus esbravejou.

Poema sem face

Quando nasci, nenhum anjo torto, desses que vivem nas sombras me disse nada.
Por falta de informação, sai desgovernado.
E como o mundo, mundo, não tão vasto mundo, era quadrado, caí no mar.
Hoje, morto, para além da Oceania, lembro saudoso e comovido como o diacho
Que não tinha nenhum anjo na porta de entrada pra me alertar
Dizer que o mar não era mar era riacho.

terça-feira, 24 de março de 2015

Prepotência poética



Pra se pôr poesia no prato,
Uma rima, um soneto, um decassílabo exato,
Um Q qualquer de Drummond, uma prosa poemada,
Não é preciso que tenha sofrido de fato.

Pra fazer um poema bonito
Desses que quem lê
Chora, pula, dá grito
Basta um cisco no olho
Basta um canto de unha
Basta que tua cueca tenha entrado na bunda.

Não espere o seu grande amor te deixar;
Não espere seu grande amor chegar.
Olhe, a ode ao sapato encharcado na chuva da manhã
De segunda-feira sem eira nem beira!
O leitor é bobinho e o poema é besteira.

“Atirou o pau no gato o menino.”
Eis, para ti, um poema genuíno.
Faça um Poemantônio, um poema Gerônimo.
Não é preciso, em si, ter fera, lepra, ou heterônimo,
Basta chamar o poema, o poema vem vindo.

Mandar poema embora, é poema.
Coçar a cabeça e pensar no que fez, é
poema, com certeza, é poema na hora.
Não escrever poema, é poema.
Esquecer o poema, é poema.
Apagar o poema, é poema.
Recitar o poema... Não.

Em face dos ótimos acontecimentos

Escrevi sem agonia alegria remorso
Sexo problema amor divórcio
Medo segredo lição de casa
Intensão de participar do movimento
Alusão ao nada nado nem molhado
Nem seco frio calor nojo beijo
Desejo de fome ou de queijo
Do jeito que tinha sentado
Nem tédio nem ócio nem sócio
Quieto falando bem maldizendo
Querendo dengo lengo tengo lengo
Tengo nem domingo nem avô
Escrevi sem recursos financeiros
Bem vestido e confortável
Escrevi num bom horário
Coisa quase hora nenhuma
Escrevi mas não publiquei
Escrevi para jogar fora

Escrevi escrevi não li.

sábado, 21 de março de 2015


                Então, não mais frívolo, não mais edemas pulmonares, não mais longos espaços de tempo preenchidos por descabidas saudades. Onde antes vida corria e vivia em desaviso da morte: respiração. Onde antes desvontades e arte, triste arte, casa.            
        E não foi nenhum sacrifício. A alma levava sem suor o corpo, e seguia erguida em sorriso. Era tudo: ah, sossego! Quando viu a casa e os móveis em seus lugares e os filhos imaginários correndo pelos corredores reais e os futuros frutos colhidos no quintal recém-
nascido: ah, sossego!  Já estavam serenos, ele, a casa, as deslembranças apagadas... Olhando a mulher com olhos de paz: - Teus olhos valem a amargura do resto da vida.

quarta-feira, 18 de março de 2015

O burburinho


“ –[...]Saiba que detesto igualmente a filosofia da obscuridade e a retórica dos poetas. Sobretudo, gosto que me respondam em prosa quando falo em prosa.
- parece-lhe que poetei?”



 Todos iremos comer calendários.
É tempo de chuva no ano do proprietário.
Todo iremos morder reloginhos.
É tempo de estarmos o tempo todo sozinhos.

Não confiem no poeta
Não ouçam o passarinho
Não amem menina esperta
Não repitam burburinho.

Cada vez que o sino soa
Ali na treze de maio
Meu peito sente que ama
Meu corpo sente um desmaio.

Nem deram conta de mim
 Nem sobrevivi nem nada
Já ouvi: não faça isso
Faça aquilo e aquilo outro!

Eu viro e desassimilo.
Perto, paro ponho tiro.
Aí depois de não-pago,
Amargo qual licor do inferno,
Á enfrentar o sol deste inverno,
Entupir-me-ei de álcool e maconha
Até que o coração pare
Ou até que eu perca a vergonha.

E então, não faço ciência
De silêncio nenhum.
Não confio no poeta
Nem escuto passarinho.
Amo somente, sem querer, menina esperta
E repito
Repito sem perder o pito

O burburinho.

Infância

Eu
Todo menino
Mijado de medo da fúria do mundo
Enredo pra quem a praga que me jogaram na rua
Se estou caído deitado morado
Na rua em que me jogaram?

Eu
Todo menino
Cagado de amores
Olho você...
Olho o mundo...
Enredo pra quem a cara que o boi da cara branca fez pra mim?
Sou nada frente à manada.

Eu
Todo menino
Não entendo não estudo não passo
Enredo pra quem se nem falar eu aprendi?
Rima mesmo é que não entoo
De tolo menino não passo.

Eu
Todo menino gozado
E essa puberdade em mim nada revigora
No entanto
Mata.
Enredo pra quem o abuso
Mão aqui mão acolá
Na consciência da gente?
Nó se ata em miolo e garganta.


Eu
Menino
Mijado cagado e sem pena de mim
Esqueço que sou
E nem tempo
E nem fuga.
Morto
Menino de tudo
Envelheci.


sábado, 7 de março de 2015

Versos d'Ellen


Lá vem Ellen.
Vou dar murros n'água,
ver os não que ela escreve,
versos-não que tece.

Lá vem Ellen!
Que soco no estômago!
Guardo ou não
no sótão, Ellen?

Ecos de Ellen...

Et elle 
ne savait pas
que bem queria
ser versos d'Ellen.

Manifesto do corpo


Meu corpo não é arte
nem, meu corpo, poesia.
Passo com pressa e me escondo
na minha periferia.

Meu corpo não é quadro
nem meu canto sinfonia.
Passo com pressa e me escondo.
Medo da burguesia!

Retiro

Ouvido aguço, ouço tiro.
Santo baixa, eu me retiro.
Ficar na terra eu prefiro.
Finco-me não-retirante.

Não obstante, eu vejo
o povo fugindo aos lampejos
do brilho de bala vizinha;
aconchegando, avizinhando
em terra que até lhe cabe,
mas que lhe dizem que invade.

Daí adiante, é perdida viagem.

Outro barraco, outra barragem
outra boca, outra boca de lobo,
outro tiro, outra fuga.
Vai, silencia e muda!
Mantem-se nunca distante
das raízes retirantes.
Se por lá água faltava,
aqui paz passa adiante.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Ode à ida

"Mas em vez disso tiro o lenço... Não para enxugar, portuguesmente, a saudade...
Mas pra saudar num Ciao
Quem me expulsa de casa!"

Porque não fechou teus olhos na devida hora?
- a vida só precisava ir em frente-
Você parou.
Teu seio de poeta é flor madura.
Carrega o estanho, o ouro, a dor da lua.
Deixa espinhos caírem ao chão da rua
Mas desabrocha, nua, quando em casa.

Teu seio de poeta jamais desaba:
Grito abafado no desabrigo do peito.
Carrega o estranho medo do malfeito;
Mantem-se malfeitor mas não tem jeito,

Teu seio de poeta é flor e amor.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Resposta ao prosador

(Desconfio que escrevi um poema.)


Não sei explicar porque a vida está frouxa.
Verso verso e que ninguém me ouça
mas sinto em dizer que frouxa
a vida está.

Esperança

Se me cabe o cisco
cabe o choro
e me cabe o dengo
no grande colo de deus.
O peito, outrora inabitado, sacudiu-se.
Como que tocado pelo instinto primitivo,
Ruge a fera no corpo.

Índio abandona tribo;
O pássaro afastou o bando;
Ruge a fera no corpo.

Vejo-me louco rasgando as páginas do livro.
Vejo-te serena vindo, não vindo.
De ti, basta um toque,
Ruge a fera no corpo.

Olhos


Amo um amor normal.
Totalmente humano.

Juro!

Cotidiano feito minha vó Maria.
Invisível feito Lídia indo ao trabalho as setes horas.
Gente feito chico, alcoólatra de pernas roxas e cuidando da bodega.

           Juro!
O meu amor tem medos, problemas, angustias,
faz meu coração sonolento
dormir no meu peito de lençol,
pensando nas contas
nas próximas horas.
E meu amor vem de ônibus
por isso demora.

Poética II

Amanheço e anoiteço
Num puxar e repuxar.
Hora dessas esqueço
Como retoricar.
Finjo finjo finjo
Reinvento reinvento.
No entanto, arte alguma
nem no mundo nem no vento.
Puxo puxo
Repuxo repuxo
Esvazio até o buxo.
Poesia? Poesia?
Não tenho mais
para mim é luxo.

Poética I

Inclina e enxuga
chuvisca e inclina
poema do bom
é poema com rima.

Tropeça e segura
chuvisca e recria
poema bonito
é poema que chia.

Apita Ritmíca
Pinta e borda a borda e pinta
o poeta é bicho pinto
pia pia pia pia.

Marta em terra

 "As asas devem ser cortadas, Marta.
Cortadas e guardadas, Marta.
Guardadas e trancadas, Marta.
Não as esqueça, se torture.
Quando cicatrizar, fure.
Deixe que sangre
Finja que cura, fure.
Querendo ou não, não terá asas, Marta.
As asas irão ser cortadas, Marta.
Palavra-tesoura-faca-bala.
Marta, anjo sem asa na ala.
Asa de anjo cortada não fala.
Fala de anjo de asa cortada
é muda ou murmure.
Mesmo que doa , sangre, fure.
Anjo. Asa. Corta-se."

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Sacrifício


Sem abstrações nem metáforas
vim dizer-te que
quis morrer,
ontem anteontem e no dia anterior.

Porque há quem lucre com a vida.
Há uma linda mulher analfabeta
atravessando a rua
e suas formas são inúteis
aos olhos desse tempo.
Sei que ela também quis morrer
ontem anteontem e antes que eu nascesse

e percebesse que
atravessando a rua
ela também quis morrer.

Estou versando agora
sem abstrações nem metáforas
para dizer-te que
querer a morte
é normal
destes tempos
voláteis
onde, insuportavelmente frágeis,
nos submetemos.

E nossos filhos nascem
se submetem
e um dia, crescidos,
hão de querer morrer como nós
ontem anteontem e ainda agora.

poema do tê

Matricule-se já na igreja mais próxima
encha depressa seu saco
é preciso ter fé no futuro
para o corpo caber no buraco.

Enviar seu curriculum
antes do tarde demais
torna-se agora vitae.

D
inheirinhos
          roupinhas
         coisinhas

para não ter que
mais tarde
contar
           carneirinhos.

Chame logo a mulher para morar numa casa
bonitinha limpinha alugadinha
sem entrada com juros e sem saída

pague-a com sua vida.

Célula


Nos corações acelerados
muita gente vai passando.

As pessoas estão se aglutinando.

O Carro atropelou um carro
que bateu numa motocicleta
atropelando um ciclista
que assaltava um pedestre.

Calamidade! As pessoas estão se aglutinando.

Todos tem copos
todos sorriem
eu mesmo os conheço bem

Sinto que estão se aglutinando.

É certo que meu beijo funcione sem o seu
mas se sinto outro beijo

me aglomero.

Quero-quero solidão
gente não.

As pessoas
As pessoas
estão se aglutinando.
[ Amar requer vento.]

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

DEDINHO


O melhor jeito de tocar o corpo social,
amor ou morte?

O amor da polícia
A morte do meu amor
O amor do profeta
A morte do meu amor
O amor do dono do supermercado
A morte do meu amor

O amor do verso
A morte do poeta.

O melhor jeito de tocar o social,
O social tocado inocente
A xereca do social sangrando
O cuzinho do social dilatado?

O pau do amor tá duro
Grande
Louco.

Gozando ando ando gozando,

Na boquinha gostosinha
Bebendo leitinho do social.

E o social poliglota
Anuncia em tom de chacota:

MY SWEET SÊMEN NA TUA AMAZING BOCA
MY LITTLE PÊNIS EM TEU ROMBUDO ORIFICE!


sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Catraca

 Acordei gemendo fome.
Levantei fome gemendo.

Céu azul Céu azul.

Meu corpo vai em direção ao senhor meu patrão.

Céu azul Céu.

Meu coração sem eira já esqueceu o amor.

Céu.

Meu olhar sem beira só procura a condução .

Azul

- Entupida de descoloridos.

Cego - o encontro é sonoro
 Mãos com o troco
 Púbis com ombro
 Pés à pés
Grito ao ouvido.

Amor não há, parado na parada.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

mole


Que mal tem eu gostar do cheiro do cimento?
 E do gosto, quando seco?
Que pai serei eu, se, criança, nem fui homem?
Gosto do limpo e do rio
Gosto do longe e do livro
Do vento e do voo
Do mundo e do novo
Da mãe e da casa
De tudo e de todos
Só não gosto é de nada.
Quero alvorada a-té a madrugada,
Em poesia terra e não concreto.
Que mal tem eu morar do lado de fora da casa-espaço-tempo?
vento
vento
vento.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Marta quando pôs-se na mala

"Esqueça o destino, o motivo, concentre-se apenas na imagem:
Marta no canto da cama. Dobrando roupas devagar. Escolhendo-as com um critério desconhecido pois envolto num olhar triste, Marta distribuía as roupas dentro da mala. ..................................................................................................................................................

Sente-se que marta partia."


À Marte.

Conselhos do silêncio à uma Marta voraz

"À tarde caiu azul.
Não se sabe Marta.
Marta amor não deveis beber.
Marta amor não deveis comer.
Marta amor não deveis olhar.
Marta amor não deveis tocar.
Marta amor não deveis amar.
Aos copos o líquido, 
Às bocas o gosto!
À Marta nada.
A tarde caiu azul
E Marta caiu no mar."

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Orgânico

Desde os tempos mais remotos
 Os santos e seus devotos
Devoram, inteiras,
Suas próprias mãos.

Depois de roídos:
Joelhos frente ao altar,
Pedindo pressa à morte.
Rogam aos céus um câncer.

Os pequenos coraçõezinhos
Sustentavam um cancerígeno
sonho.

Retorcidos, eles,
- coitados -
Entre gemidos estridentes,
Poder-se-ia concluir, com sincera volúpia:
A ansiedade é HUMANO.

















''e se as unhas roessem os meninos?"


Confissões de Marta em sua morte insistente

"Restos de Marta na mata.
Marta morta mata.
Marta dizendo mate-me.
Quem é Marta entre os homens?"

Confissão de Marta ao espelho que refletia tudo azul

"Que marta se reconheça
nas águas densas
em prédios enormes e infinitos andares
nos ébrios
nos ares
se reconheça na imensidão de olhares entregues a ela."

Confissões de uma Marta entre as ruas mais sujas de uma cidade azul

"Velhas ruas
esquinas tantas
praças,
passem!
Sinto, mas, nos afastemos.
Estou indo de encontro a olhos mais sonoros do que os meus."

Confissões de uma Marta entre ramos de flores azuis

"Teu longínquo nome em minhas longínquas orelhas. Teu cheiro que vem-me suave por entre os ares urbanos. E nas noites, vivos, cantamos longínquas confissões. Que tempos longínquos, alcancemos! Querido, não me mate se não estiver tão morto quanto eu."

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

nua agora

E se nua, insinuam-se ilusões esteticamente favoráveis
à poesia.
Insinuar,
 do latim: insinuare.
Sugerir ou dar a entender matreiramente, geralmente com maldade ou malícia,
infundir sutilmente na mente,
introduzir-se suavemente.

terno

Ando apaixonadamente saudável.
Meus olhos brilham.
Meu estômago está cheio.
Meu ar cintila as palavras que vem e vão
Da boca da paixão.

Ando apaixonadamente elegante.
Meu terno bem passado.
Minha ternura ornamentando.
Nada para lamentar
Nem dentro do peito nem sobre o trajar.

Ando lentamente apaixonado.
Percebo curvas.
E o que for turvo: paciência.
Tenho a meu favor
Certas cores: azul.

Inclusive, o medo,
Tem sido meu amigo,
Me trazendo ar,
Cedo,
Pois ando
Por sobre o tempo.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Desobediência

vô viu
vó ouviu
mãe repitiu
pai olhou fei
filho que sou
fiz-me môco

HISTÓRIA BONITA DE UM FUTURO QUALQUER


Eu sou um bêbado
e ando mesmo embriagado de medo.
Pois que me fechem suas portas.
Morrerei,
Fruto da ultima colheita
Coisa sem cor
Canção desfeita
Luz apagada
Sonho quebrado.

Corre a noticia:
CRIANÇA MORTA PERDE ESMOLA NO SINAL.

É meu filho,
bêbado também.
Afinal,
tal filho
tal pau.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Feiura

O feio está triste.
Triste pois, o mundo fez uma receita.
E o feio não cumpre nem que queira,
 porque é feio feito o diacho,
e não se enquadra nessa foto três por quatro.
Fica todo feio andando cabisbaixo.
Conversa com o espelho seu embaraço,
nele, feio,
tudo que tem: Dois lindos sapatos,
e o olhar que reflete
o desejo de um flerte
 de alguém que ache lindo
 o que nele se inverte.

domingo, 4 de janeiro de 2015

Lendas

      De todos os que estavam presentes naquele cômodo o negro era o mais aflito. Empurrava em si colheradas cheias que caiam de volta no prato. Olhos e boca se contorcendo, pernas inquietas embaixo da mesa, cabeça balançando negativamente.
- me'rmão, acho que não aconteceu nada. Também, se tiver acontecido... Quem nunca perdeu um doente pra Deus que bote os joelhos no chão e agradeça.
        Os dois negros na mesa balançavam a cabeça e sem dizer uma palavra sequer, continuavam comendo. A negra mais velha costurando calada, não olhava em volta, apenas existia o tecido velho que remendava. Se pensava no velho, não dizia. Desde que havia saído ao encontro da negra adolescente que tardara na imensidão de terra seca, não disse nada a negra velha. Um negrinho-criança sorria para o chão e as paredes inventando brincadeiras.
       Há uma semana os três negros, esses que estão sentados à mesa, haviam arrumado serviço nas terras d'um coronel branco e estavam por lá trabalhando feito escravos. Nesse cômodo apenas negra velha e negro velho sentados, uma na cadeira, outro no chão. Mesa vazia. Negro pequeno no mesmo lugar, rindo para o chão e as paredes. Negra moça já estava perto de chegar. Havia saído fazia algum tempo para buscar nas entranhas da seca água.
- Que demora, meu pai! Vá gritar por essa menina lá fora, vá!
   Levanta-se o negro velho. Perna trêmulas, tosse grossa. Pega a madeira que usa como bengala e sai se arrastando nas brenhas. " Neguinha! Neguinha! Volte pra casa, nega, tá ficando escuro. Esses mato tem cobra, venha." Foi chamando, chamando, chamando até a voz sumir no oco do céu estrelado.
    Nem neguinha nem nego velho.
    Hoje, no cômodo, o incômodo do silêncio. Pensa-se de tudo. Neguinha, Nego, tudo, viraram visagem.