terça-feira, 31 de março de 2015

Marta espapaçada ao sol

“Marta enfurece o sol com seu canto
Pois tirou a roupa bem na hora do tiroteio.
Marta tem um banho de rio nos olhos,
Respira bem da cabeça, mas o púbis e os pulmões
Seguram na mão de deus.

Marta ria que se mijava porque na igreja
Rezavam para que chovesse e
Quando chovia rezavam para que parasse.

Marta enfurece a luz com sua voz.
Tirou a roupa bem na hora da comunhão.
Tem um cisco no olho esquerdo.
Já não tem cabeça nem púbis nem pulmões
Mas o coração
                               Azul!
                                                Resiste.

Marta ria que se mijava
Porque nunca mais choveu.
Ela acha que deus tapou os ouvidos.
Marta vê beleza nisso tudo.”

Jardim do Éden

Deus fez o homem sua imagem e semelhança.
E desde que o mundo é mundo
Do primeiro ao sétimo dia
Deus diz: Haja paciência para nossa imbecilidade cotidiana.

E então nasceram os carros e os aviões
E um Shopping Center a cada esquina
E quatro jovens de classe
Num semi-veículo de semi-luxo
Gritando pela janela: Vem cá, gostosa!

E fez-se na terra as gostosas
E as bocas femininas
E uma série de vantagens.
Por exemplo: ATÉ AS DEZ, MULHER NÃO PAGA.

Sento sobre meu coração
E sentar sobre meu coração às seis horas da noite
É como sentar no banco do fundo do ônibus:
Balança, sacoleja, me joga no chão.

Acho bonito teu corpo se movimentando.
Pena que ele não está voltando para casa feito o passarinho!
A hora do homem é quase dez,
Do passarinho, às seis.
E hoje, por incrível que pareça,
É segunda-feira.
Haja paciência para nossa imbecilidade cotidiana!
Deus esbravejou.

Poema sem face

Quando nasci, nenhum anjo torto, desses que vivem nas sombras me disse nada.
Por falta de informação, sai desgovernado.
E como o mundo, mundo, não tão vasto mundo, era quadrado, caí no mar.
Hoje, morto, para além da Oceania, lembro saudoso e comovido como o diacho
Que não tinha nenhum anjo na porta de entrada pra me alertar
Dizer que o mar não era mar era riacho.

terça-feira, 24 de março de 2015

Prepotência poética



Pra se pôr poesia no prato,
Uma rima, um soneto, um decassílabo exato,
Um Q qualquer de Drummond, uma prosa poemada,
Não é preciso que tenha sofrido de fato.

Pra fazer um poema bonito
Desses que quem lê
Chora, pula, dá grito
Basta um cisco no olho
Basta um canto de unha
Basta que tua cueca tenha entrado na bunda.

Não espere o seu grande amor te deixar;
Não espere seu grande amor chegar.
Olhe, a ode ao sapato encharcado na chuva da manhã
De segunda-feira sem eira nem beira!
O leitor é bobinho e o poema é besteira.

“Atirou o pau no gato o menino.”
Eis, para ti, um poema genuíno.
Faça um Poemantônio, um poema Gerônimo.
Não é preciso, em si, ter fera, lepra, ou heterônimo,
Basta chamar o poema, o poema vem vindo.

Mandar poema embora, é poema.
Coçar a cabeça e pensar no que fez, é
poema, com certeza, é poema na hora.
Não escrever poema, é poema.
Esquecer o poema, é poema.
Apagar o poema, é poema.
Recitar o poema... Não.

Em face dos ótimos acontecimentos

Escrevi sem agonia alegria remorso
Sexo problema amor divórcio
Medo segredo lição de casa
Intensão de participar do movimento
Alusão ao nada nado nem molhado
Nem seco frio calor nojo beijo
Desejo de fome ou de queijo
Do jeito que tinha sentado
Nem tédio nem ócio nem sócio
Quieto falando bem maldizendo
Querendo dengo lengo tengo lengo
Tengo nem domingo nem avô
Escrevi sem recursos financeiros
Bem vestido e confortável
Escrevi num bom horário
Coisa quase hora nenhuma
Escrevi mas não publiquei
Escrevi para jogar fora

Escrevi escrevi não li.

sábado, 21 de março de 2015


                Então, não mais frívolo, não mais edemas pulmonares, não mais longos espaços de tempo preenchidos por descabidas saudades. Onde antes vida corria e vivia em desaviso da morte: respiração. Onde antes desvontades e arte, triste arte, casa.            
        E não foi nenhum sacrifício. A alma levava sem suor o corpo, e seguia erguida em sorriso. Era tudo: ah, sossego! Quando viu a casa e os móveis em seus lugares e os filhos imaginários correndo pelos corredores reais e os futuros frutos colhidos no quintal recém-
nascido: ah, sossego!  Já estavam serenos, ele, a casa, as deslembranças apagadas... Olhando a mulher com olhos de paz: - Teus olhos valem a amargura do resto da vida.

quarta-feira, 18 de março de 2015

O burburinho


“ –[...]Saiba que detesto igualmente a filosofia da obscuridade e a retórica dos poetas. Sobretudo, gosto que me respondam em prosa quando falo em prosa.
- parece-lhe que poetei?”



 Todos iremos comer calendários.
É tempo de chuva no ano do proprietário.
Todo iremos morder reloginhos.
É tempo de estarmos o tempo todo sozinhos.

Não confiem no poeta
Não ouçam o passarinho
Não amem menina esperta
Não repitam burburinho.

Cada vez que o sino soa
Ali na treze de maio
Meu peito sente que ama
Meu corpo sente um desmaio.

Nem deram conta de mim
 Nem sobrevivi nem nada
Já ouvi: não faça isso
Faça aquilo e aquilo outro!

Eu viro e desassimilo.
Perto, paro ponho tiro.
Aí depois de não-pago,
Amargo qual licor do inferno,
Á enfrentar o sol deste inverno,
Entupir-me-ei de álcool e maconha
Até que o coração pare
Ou até que eu perca a vergonha.

E então, não faço ciência
De silêncio nenhum.
Não confio no poeta
Nem escuto passarinho.
Amo somente, sem querer, menina esperta
E repito
Repito sem perder o pito

O burburinho.

Infância

Eu
Todo menino
Mijado de medo da fúria do mundo
Enredo pra quem a praga que me jogaram na rua
Se estou caído deitado morado
Na rua em que me jogaram?

Eu
Todo menino
Cagado de amores
Olho você...
Olho o mundo...
Enredo pra quem a cara que o boi da cara branca fez pra mim?
Sou nada frente à manada.

Eu
Todo menino
Não entendo não estudo não passo
Enredo pra quem se nem falar eu aprendi?
Rima mesmo é que não entoo
De tolo menino não passo.

Eu
Todo menino gozado
E essa puberdade em mim nada revigora
No entanto
Mata.
Enredo pra quem o abuso
Mão aqui mão acolá
Na consciência da gente?
Nó se ata em miolo e garganta.


Eu
Menino
Mijado cagado e sem pena de mim
Esqueço que sou
E nem tempo
E nem fuga.
Morto
Menino de tudo
Envelheci.


sábado, 7 de março de 2015

Versos d'Ellen


Lá vem Ellen.
Vou dar murros n'água,
ver os não que ela escreve,
versos-não que tece.

Lá vem Ellen!
Que soco no estômago!
Guardo ou não
no sótão, Ellen?

Ecos de Ellen...

Et elle 
ne savait pas
que bem queria
ser versos d'Ellen.

Manifesto do corpo


Meu corpo não é arte
nem, meu corpo, poesia.
Passo com pressa e me escondo
na minha periferia.

Meu corpo não é quadro
nem meu canto sinfonia.
Passo com pressa e me escondo.
Medo da burguesia!

Retiro

Ouvido aguço, ouço tiro.
Santo baixa, eu me retiro.
Ficar na terra eu prefiro.
Finco-me não-retirante.

Não obstante, eu vejo
o povo fugindo aos lampejos
do brilho de bala vizinha;
aconchegando, avizinhando
em terra que até lhe cabe,
mas que lhe dizem que invade.

Daí adiante, é perdida viagem.

Outro barraco, outra barragem
outra boca, outra boca de lobo,
outro tiro, outra fuga.
Vai, silencia e muda!
Mantem-se nunca distante
das raízes retirantes.
Se por lá água faltava,
aqui paz passa adiante.