terça-feira, 24 de março de 2015

Prepotência poética



Pra se pôr poesia no prato,
Uma rima, um soneto, um decassílabo exato,
Um Q qualquer de Drummond, uma prosa poemada,
Não é preciso que tenha sofrido de fato.

Pra fazer um poema bonito
Desses que quem lê
Chora, pula, dá grito
Basta um cisco no olho
Basta um canto de unha
Basta que tua cueca tenha entrado na bunda.

Não espere o seu grande amor te deixar;
Não espere seu grande amor chegar.
Olhe, a ode ao sapato encharcado na chuva da manhã
De segunda-feira sem eira nem beira!
O leitor é bobinho e o poema é besteira.

“Atirou o pau no gato o menino.”
Eis, para ti, um poema genuíno.
Faça um Poemantônio, um poema Gerônimo.
Não é preciso, em si, ter fera, lepra, ou heterônimo,
Basta chamar o poema, o poema vem vindo.

Mandar poema embora, é poema.
Coçar a cabeça e pensar no que fez, é
poema, com certeza, é poema na hora.
Não escrever poema, é poema.
Esquecer o poema, é poema.
Apagar o poema, é poema.
Recitar o poema... Não.

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