terça-feira, 27 de janeiro de 2015

DEDINHO


O melhor jeito de tocar o corpo social,
amor ou morte?

O amor da polícia
A morte do meu amor
O amor do profeta
A morte do meu amor
O amor do dono do supermercado
A morte do meu amor

O amor do verso
A morte do poeta.

O melhor jeito de tocar o social,
O social tocado inocente
A xereca do social sangrando
O cuzinho do social dilatado?

O pau do amor tá duro
Grande
Louco.

Gozando ando ando gozando,

Na boquinha gostosinha
Bebendo leitinho do social.

E o social poliglota
Anuncia em tom de chacota:

MY SWEET SÊMEN NA TUA AMAZING BOCA
MY LITTLE PÊNIS EM TEU ROMBUDO ORIFICE!


sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Catraca

 Acordei gemendo fome.
Levantei fome gemendo.

Céu azul Céu azul.

Meu corpo vai em direção ao senhor meu patrão.

Céu azul Céu.

Meu coração sem eira já esqueceu o amor.

Céu.

Meu olhar sem beira só procura a condução .

Azul

- Entupida de descoloridos.

Cego - o encontro é sonoro
 Mãos com o troco
 Púbis com ombro
 Pés à pés
Grito ao ouvido.

Amor não há, parado na parada.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

mole


Que mal tem eu gostar do cheiro do cimento?
 E do gosto, quando seco?
Que pai serei eu, se, criança, nem fui homem?
Gosto do limpo e do rio
Gosto do longe e do livro
Do vento e do voo
Do mundo e do novo
Da mãe e da casa
De tudo e de todos
Só não gosto é de nada.
Quero alvorada a-té a madrugada,
Em poesia terra e não concreto.
Que mal tem eu morar do lado de fora da casa-espaço-tempo?
vento
vento
vento.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Marta quando pôs-se na mala

"Esqueça o destino, o motivo, concentre-se apenas na imagem:
Marta no canto da cama. Dobrando roupas devagar. Escolhendo-as com um critério desconhecido pois envolto num olhar triste, Marta distribuía as roupas dentro da mala. ..................................................................................................................................................

Sente-se que marta partia."


À Marte.

Conselhos do silêncio à uma Marta voraz

"À tarde caiu azul.
Não se sabe Marta.
Marta amor não deveis beber.
Marta amor não deveis comer.
Marta amor não deveis olhar.
Marta amor não deveis tocar.
Marta amor não deveis amar.
Aos copos o líquido, 
Às bocas o gosto!
À Marta nada.
A tarde caiu azul
E Marta caiu no mar."

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Orgânico

Desde os tempos mais remotos
 Os santos e seus devotos
Devoram, inteiras,
Suas próprias mãos.

Depois de roídos:
Joelhos frente ao altar,
Pedindo pressa à morte.
Rogam aos céus um câncer.

Os pequenos coraçõezinhos
Sustentavam um cancerígeno
sonho.

Retorcidos, eles,
- coitados -
Entre gemidos estridentes,
Poder-se-ia concluir, com sincera volúpia:
A ansiedade é HUMANO.

















''e se as unhas roessem os meninos?"


Confissões de Marta em sua morte insistente

"Restos de Marta na mata.
Marta morta mata.
Marta dizendo mate-me.
Quem é Marta entre os homens?"

Confissão de Marta ao espelho que refletia tudo azul

"Que marta se reconheça
nas águas densas
em prédios enormes e infinitos andares
nos ébrios
nos ares
se reconheça na imensidão de olhares entregues a ela."

Confissões de uma Marta entre as ruas mais sujas de uma cidade azul

"Velhas ruas
esquinas tantas
praças,
passem!
Sinto, mas, nos afastemos.
Estou indo de encontro a olhos mais sonoros do que os meus."

Confissões de uma Marta entre ramos de flores azuis

"Teu longínquo nome em minhas longínquas orelhas. Teu cheiro que vem-me suave por entre os ares urbanos. E nas noites, vivos, cantamos longínquas confissões. Que tempos longínquos, alcancemos! Querido, não me mate se não estiver tão morto quanto eu."

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

nua agora

E se nua, insinuam-se ilusões esteticamente favoráveis
à poesia.
Insinuar,
 do latim: insinuare.
Sugerir ou dar a entender matreiramente, geralmente com maldade ou malícia,
infundir sutilmente na mente,
introduzir-se suavemente.

terno

Ando apaixonadamente saudável.
Meus olhos brilham.
Meu estômago está cheio.
Meu ar cintila as palavras que vem e vão
Da boca da paixão.

Ando apaixonadamente elegante.
Meu terno bem passado.
Minha ternura ornamentando.
Nada para lamentar
Nem dentro do peito nem sobre o trajar.

Ando lentamente apaixonado.
Percebo curvas.
E o que for turvo: paciência.
Tenho a meu favor
Certas cores: azul.

Inclusive, o medo,
Tem sido meu amigo,
Me trazendo ar,
Cedo,
Pois ando
Por sobre o tempo.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Desobediência

vô viu
vó ouviu
mãe repitiu
pai olhou fei
filho que sou
fiz-me môco

HISTÓRIA BONITA DE UM FUTURO QUALQUER


Eu sou um bêbado
e ando mesmo embriagado de medo.
Pois que me fechem suas portas.
Morrerei,
Fruto da ultima colheita
Coisa sem cor
Canção desfeita
Luz apagada
Sonho quebrado.

Corre a noticia:
CRIANÇA MORTA PERDE ESMOLA NO SINAL.

É meu filho,
bêbado também.
Afinal,
tal filho
tal pau.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Feiura

O feio está triste.
Triste pois, o mundo fez uma receita.
E o feio não cumpre nem que queira,
 porque é feio feito o diacho,
e não se enquadra nessa foto três por quatro.
Fica todo feio andando cabisbaixo.
Conversa com o espelho seu embaraço,
nele, feio,
tudo que tem: Dois lindos sapatos,
e o olhar que reflete
o desejo de um flerte
 de alguém que ache lindo
 o que nele se inverte.

domingo, 4 de janeiro de 2015

Lendas

      De todos os que estavam presentes naquele cômodo o negro era o mais aflito. Empurrava em si colheradas cheias que caiam de volta no prato. Olhos e boca se contorcendo, pernas inquietas embaixo da mesa, cabeça balançando negativamente.
- me'rmão, acho que não aconteceu nada. Também, se tiver acontecido... Quem nunca perdeu um doente pra Deus que bote os joelhos no chão e agradeça.
        Os dois negros na mesa balançavam a cabeça e sem dizer uma palavra sequer, continuavam comendo. A negra mais velha costurando calada, não olhava em volta, apenas existia o tecido velho que remendava. Se pensava no velho, não dizia. Desde que havia saído ao encontro da negra adolescente que tardara na imensidão de terra seca, não disse nada a negra velha. Um negrinho-criança sorria para o chão e as paredes inventando brincadeiras.
       Há uma semana os três negros, esses que estão sentados à mesa, haviam arrumado serviço nas terras d'um coronel branco e estavam por lá trabalhando feito escravos. Nesse cômodo apenas negra velha e negro velho sentados, uma na cadeira, outro no chão. Mesa vazia. Negro pequeno no mesmo lugar, rindo para o chão e as paredes. Negra moça já estava perto de chegar. Havia saído fazia algum tempo para buscar nas entranhas da seca água.
- Que demora, meu pai! Vá gritar por essa menina lá fora, vá!
   Levanta-se o negro velho. Perna trêmulas, tosse grossa. Pega a madeira que usa como bengala e sai se arrastando nas brenhas. " Neguinha! Neguinha! Volte pra casa, nega, tá ficando escuro. Esses mato tem cobra, venha." Foi chamando, chamando, chamando até a voz sumir no oco do céu estrelado.
    Nem neguinha nem nego velho.
    Hoje, no cômodo, o incômodo do silêncio. Pensa-se de tudo. Neguinha, Nego, tudo, viraram visagem.

Cama

João deitava Claudia com força. Claudia queria força. João deitava Claudia toda noite, com força. Essa história começa na festa do Paulo e termina na festa do Pedro. Parece que,  nesse dia, João tomou sete doses e deitou Ana e Marcos na mesma cama e com a mesma força. Claudia só foi deitar na própria cama em casa, e sozinha, e para chorar. Nessa noite, não deitou nem foi deitada por ninguém, a não ser por ela mesma.

sábado, 3 de janeiro de 2015

Mama


Ela é sensata na sua loucura de mãe.

Me entrega o pão
e diz que eu não olhe para os lados;
que eu não chore se não houver abraços;
que eu viaje se eu me sentir sozinho;
e que eu trabalhe se estiver com frio.

Ela é gritaria no seu silêncio de mãe.

 Me deu um livro quando eu era criança
e disse que eu permanecesse nas páginas.
Morre de medo que eu vá na esquina,
mas quando ela virou as costas
 eu fui correndo.
E como amei a esquina!

Ela é deserto na sua multidão de mãe.

Não tem um tostão para me dar
além da sua reza de fé cristã.
Disse-me que se houvesse sorte e deus
me daria, amanhã.

E amanhã já chegou, mãe.