domingo, 4 de janeiro de 2015

Lendas

      De todos os que estavam presentes naquele cômodo o negro era o mais aflito. Empurrava em si colheradas cheias que caiam de volta no prato. Olhos e boca se contorcendo, pernas inquietas embaixo da mesa, cabeça balançando negativamente.
- me'rmão, acho que não aconteceu nada. Também, se tiver acontecido... Quem nunca perdeu um doente pra Deus que bote os joelhos no chão e agradeça.
        Os dois negros na mesa balançavam a cabeça e sem dizer uma palavra sequer, continuavam comendo. A negra mais velha costurando calada, não olhava em volta, apenas existia o tecido velho que remendava. Se pensava no velho, não dizia. Desde que havia saído ao encontro da negra adolescente que tardara na imensidão de terra seca, não disse nada a negra velha. Um negrinho-criança sorria para o chão e as paredes inventando brincadeiras.
       Há uma semana os três negros, esses que estão sentados à mesa, haviam arrumado serviço nas terras d'um coronel branco e estavam por lá trabalhando feito escravos. Nesse cômodo apenas negra velha e negro velho sentados, uma na cadeira, outro no chão. Mesa vazia. Negro pequeno no mesmo lugar, rindo para o chão e as paredes. Negra moça já estava perto de chegar. Havia saído fazia algum tempo para buscar nas entranhas da seca água.
- Que demora, meu pai! Vá gritar por essa menina lá fora, vá!
   Levanta-se o negro velho. Perna trêmulas, tosse grossa. Pega a madeira que usa como bengala e sai se arrastando nas brenhas. " Neguinha! Neguinha! Volte pra casa, nega, tá ficando escuro. Esses mato tem cobra, venha." Foi chamando, chamando, chamando até a voz sumir no oco do céu estrelado.
    Nem neguinha nem nego velho.
    Hoje, no cômodo, o incômodo do silêncio. Pensa-se de tudo. Neguinha, Nego, tudo, viraram visagem.

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