Bem mais tarde, sol poente, domingo lindo, João pendurado no murinho da laje. A perna engessada; a cara de ébrio. Ébrio não, bebum.
- Desce daí, João! Não vai fazer uma desgraça dessa com nós! - Chorava e berrava. Dava dó. Ô, Dona Conceição!
As vozes narrativas perturbavam a consciência de João: Mataram teu menino, foi a policia. Mataram teu menino, foi os menino do outro morro. Cinco tiros, João. Três facadas, João. Lá nos asfalto, João. Corre lá, João. Teu menino era bandido, João. João. João. João. João desregulou-se.
- Desce daí, João! Vamo tomar um banho pra melhorar dessa cachaça. Eu faço um caldo. À noite a Amélia vem aqui com a Dona Rita e nós vamo rezar um terço, desce. Ô, João, tem pena d'eu.
Um mês, mais ou menos, chegaram com os fatos na maior das gritarias na porta de João e Dona Conceição. De lá pra cá não teve João na obra; não teve João na feira. João que é João só teve no bar.
Na última, João chegou no bar e o assunto era o menino. João que é João, jámôrdebêbo, virou mesa, quebrou garrafa e deixou ferido uns três. Mas o bar estava em vantagem. foi motim foi linchamento. Só pararam porque alguém pediu pelo amor de Deus, em respeito, ao menos, à Dona Conceição.
Bem mais tarde, sol poente, domingo lindo, João sobe na laje em primeira pessoa e decide acabar com todas as vozes narrativas. Olha para baixo e vê, chorando, andando para lá e para cá, a embaçada e muda Conceição. E o enredo continua: Nesta quinta-feira, adolescente foi morto, baleado em troca de tiros com gangue inimiga. Mataram teu menino, João. Foi a policia. Foi o ladrão. Foi outro menino. Era bandido. Mereceu. Corre lá, João, corre lá.
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