domingo, 29 de junho de 2014

História Feliz de Cheiro e Cor

Correndo, adoidado, esbarrando-se em tudo, lá vinha o pretinho. O olho agigantado, paranoico, fotografando trezentos e sessenta graus da paisagem dos becos enlameados e das modestas casas espremidas e desordenadas. O corpo sujo, preto, exalava forte o cheiro da Nóia. Agora, sem fome, entraria na bodegazinha mais próxima, do seu Francisco mais desavisado que houvesse. Pegaria o que mais acessível fosse ao seu bolso que no máximo caberia um sabonete ou uma barra de chocolate. Não ia banhar-se nem mesmo saborear um docíssimo doce. Venderia ao primeiro caridoso desalmado que cristianissimamente ajudaria um coitado pobre-diabo. Ia sorrindo, sujo, pretinho, sem camisa. O bolso pesado com o produto de seu mérito. Menino iluminado pelo sol ardido. Sorria esse pivete, sem destino, sem família. Um prejudicado, um prejuízo. Sorria, mas que sorriso lindo e teimoso! Será que era feliz?

Correndo, adoidado, esbarrando-se em tudo, lá vinha o pretinho.

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