Correndo,
adoidado, esbarrando-se em tudo, lá vinha o pretinho. O olho agigantado,
paranoico, fotografando trezentos e sessenta graus da paisagem dos becos
enlameados e das modestas casas espremidas e desordenadas. O corpo sujo, preto,
exalava forte o cheiro da Nóia. Agora, sem fome, entraria na bodegazinha mais
próxima, do seu Francisco mais desavisado que houvesse. Pegaria o que mais
acessível fosse ao seu bolso que no máximo caberia um sabonete ou uma barra de
chocolate. Não ia banhar-se nem mesmo saborear um docíssimo doce. Venderia ao
primeiro caridoso desalmado que cristianissimamente ajudaria um coitado
pobre-diabo. Ia sorrindo, sujo, pretinho, sem camisa. O bolso pesado com o
produto de seu mérito. Menino iluminado pelo sol ardido. Sorria esse pivete,
sem destino, sem família. Um prejudicado, um prejuízo. Sorria, mas que sorriso
lindo e teimoso! Será que era feliz?
Correndo,
adoidado, esbarrando-se em tudo, lá vinha o pretinho.

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